domingo, 21 de junho de 2009

Meu primeiro Bloomsday

Bloomsday é o nome que se dá a uma comemoração literária anual bastante atípica. O que se comemora não é a data de nascimento nem de morte de um dos maiores nomes da literatura mundial, James Joyce. É a data de celebração de seu maior personagem, Leopold Bloom. Ou seja, a ficcção tornou-se mais real que a realidade. O personagem, e não o escritor, ganhou um dia só seu no calendário!
Joyce é autor do que muitos consideram a maior obra da literatura mundial do século XX, Ulisses. Ulisses, uma "bíblia" de quase 800 páginas, narra um dia na vida de Leopold Bloom, em seu percurso pela Dublin do início do século. Não, você não leu errado: as 800 páginas são preenchidas por um único dia na vida de um sujeito que nada tem de especial. Esse dia é 16 de junho de 1904. E é justamente no dia 16 de junho que se celebra, todos os anos, a vida e a obra de Joyce.
A ironia final é saber que Joyce participa, sim, do romance, na pele de Stephen Dedalus, seu personagem alter-ego, o eruditíssimo e complicadíssimo amigo de Bloom. Mas o grande nome mesmo é Bloom. O que me leva a pensar que aí é que reside grande parte de sua genialidade: a capacidade de retratar com autencidade quase inacreditável um homem totalmente diferente dele mesmo. E, como se não bastasse, ele retrata de forma igualmente assustadora uma mulher, Molly Bloom, a fiel-infiel esposa de Bloom. Dizem os estudiosos que o capítulo final de Ulisses, em que os pensamentos de Molly são retratados sem censura e sem interrupção por quarenta páginas, é um dos melhores retratos da alma feminina jamais escritos.
A comemoração começou na Irlanda, terra natal de Joyce, e se propagou por todos os cantos do mundo. São Paulo ganhou um Bloomsday pra chamar de seu há 22 anos. Todos os anos os fãs do escritor reunem-se no Finnegans Pub para beber cerveja guinness e ler trechos da obra.
Demorei pra descobrir o evento, mas valeu a pena. Ano que vem estarei lá de novo. E, espero (fica aqui a promessa), já tendo lido o Ulisses. É uma empreitada e tanto, mas, como bem disseram os palestrantes deste ano, melhor que interpretação, palestra, música, festa, etc, é a comemoração solitária, só você e o Joyce, no silêncio da leitura.
Se seu filho vai bem na escola, preocupe-se: só os maus alunos dão certo.

terça-feira, 26 de maio de 2009

domingo, 26 de abril de 2009

quinta-feira, 19 de março de 2009

Pra que ser racional se é tão mais racional ser irracional?

“Não entender” era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.

(…) Compreender era sempre um erro – preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana.

(Clarice Lispector, em "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres")

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Resumo da Mostra

Um pouco atrasado (só um pouquinho!), segue aqui o resumo da Mostra de Cinema como vista pela Giovana, a novata:

1. O Poderoso Chefão (parte I): em uma palavra, obra-prima. O que dizer de Al Pacino na pele de Michael Corleone? Só posso dizer que largaria tudo para viver com o homem dono daquele olhar que arrebata Apollonia na vila italiana... E o que dizer do desespero ao ver Kay aceitando casar-se com Michael? Dá vontade de entrar na tela e sacudi-la até ela entender a besteira que está fazendo! E o que dizer da cena do batizado, mesclando o discurso do padre com o derramamento de sangue encomendado por Michael? E finalmente, o que dizer da porta se fechando para Kay na cena final, depois de Michael mentir para ela dizendo “Não, Kay, eu não matei meu cunhado”... Ah! Depois dessa cena, simplesmente não dá pra levantar e ir embora. A gente fica grudado na cadeira, meio catatônico, meio sem ar, com vontade de bater palmas e agradecendo a deus por ter criado Coppola e Al Pacino...

2. Sede de Paixões: minha iniciação a Bergman. Um começo um pouco difícil, devo admitir. Mais comentários no meu outro post sobre a Mostra.

3. Fim de Verão: filminho japonês da década de 60, todo chiado, parecia aquelas fitas VHS misteriosas que os caras encontram no seriado Lost, sabe? Interessante, mas nada espetacular.

4. Toda Rotina Tem Sua Beleza: idem

5. Tulpan: filme bizarro do Afeganistão. Escrevi sobre ele no meu post inicial sobre a Mostra. É uma boa experiência cultural.

6. Invisíveis: seqüência de quatro curtas sobre pessoas cujos problemas são considerados invisíveis para as pessoas acomodadas como nós. Daqueles que se propõem a mostrar o mundo cão e nos sensibilizar para isso. Pretensioso como só ele. Achei péssimo.

7. Fanny e Alexander: um dos últimos filmes de Bergman, considerado por muitos o seu melhor trabalho. Achei excepcional, embora tenha um sentimento de que fiquei apenas na superfície de um vasto oceano. É bastante coisa pra se digerir de uma vez só, inclusive algumas cenas que entram pra categoria “chuva de sapos no Magnólia”, sabe? É aquela categoria das cenas totalmente non-sense, mas que você ama mesmo assim. Enfim, ainda tenho uma longa caminhada nesse negócio de cinema...

8. A Era Dos Matadores: thriller/comédia japonesa. Achei meio “trapalhões”...

9. Confissões de Super-Heróis: excelente documentário sobre artistas que ganham a vida fantasiando-se de super-heróis e tirando fotos com turistas no Holywood Boulevard em troca de gorjetas. Tocante.

10. Teza: este sim um filme que mostra o mundo cão (a África, sempre insuperável em matéria de mundo cão) sem cair na panfletagem afetada dos Invisíveis. Algumas cenas de embrulhar o estômago, algumas cenas que fazem a gente pensar que a humanidade devia ser exterminada do planeta... Mundo cão, mas com uma mensagem de esperança no final. Belíssimo.

11. Hanami – Cerejeiras em Flor: maravilhoso. O filme se passa parte na Alemanha, parte no Japão, ou seja, mais distante do Brasil impossível. Mas por que é que eu reconheci ali todas as famílias do mundo? Como já disse no post sobre Tchecov, os conflitos não mudam com a latitude nem com a época. Uma lição de vida.

12. A Guitarra: estorinha boba sobre uma mulher que descobre que tem pouco tempo de vida por causa de um tumor no cérebro e resolve então viver intensamente o tempo que lhe resta. Um mote batido, mas com potencial. Infelizmente foi muito mal aproveitado. Não perca seu tempo.

13. Radio Corazón: filme impagável sobre um programa de radio chileno chamado Radio Corazón. Num formato bastante conhecido aqui no Brasil, o programa recebe depoimentos de pessoas que viveram desventuras amorosas. Três dessas histórias foram selecionadas e entraram no filme. Todas engraçadas, dramáticas e cheias de surpresas. Um filme delicioso.

14. The Blue Tooth Virgin: e não é que o meu favorito foi o último? O filme com a trama mais simples e corriqueira foi o que mais me agradou como um todo, talvez por vir frontalmente de encontro aos conflitos que povoam minha cabeça nos últimos tempos. De que se trata? Assistam! Um dos melhores textos que vi ultimamente.